domingo, 27 de maio de 2012

Impressões: Nissan March 1.6 SV

Lançado no fim do ano passado, o Nissan March vem cativando aos poucos o público brasileiro, mas ainda não é visto com muita frequência nas ruas. De acordo com o ranking nacional da Fenabrave, durante a primeira quinzena de Abril, o modelo ocupou o 16º lugar de vendas, com 1.690 carros vendidos. É um número razoável, mas perde feio para seus concorrentes diretos, como VW Gol e Fiat Uno, que somaram 11.275 e 9.092 carros vendidos, respectivamente. O Direção Assistida andou com o Nissan March 1.6 SV por alguns quilômetros e teve boas impressões do carro, conforme pode ser visto logo abaixo.



Quando aquele compacto com cara de Pokémon estava me encarando no estacionamento, devo confessar que não tive tanta atração assim por ele. Visto pela lateral, as coisas melhoram um pouco, mas não agradam. As rodas, apesar do aro 15", parecem pequenas demais para a altura elevada da carroceria. Buscando achar um ângulo interessante do carro, vou para a traseira, mas a decepção é completa. Não sou especialista em design, mas verdade seja dita, o Nissan March é como um Ornitorrinco, ou seja, apesar de ter gente que acha ele bonito ou fofo, na verdade ele é feio e as suas formas são incoerentes entre si.

São 3,78 m de comprimento, 1,66 m de largura e 1,52 m de altura. As rodas estão separadas por 2,45 m de distância entre-eixos. Olhando esse comprimento, você espera um carro pequeno e apertado por dentro, como um Chevrolet Celta, por exemplo. Engano seu, pois graças à altura do compacto japonês, o interior é muito bem aproveitado, sobrando espaço para todos os ocupantes. É a mesma filosofia usada pelo VW Fox, um carro curto, estreito e alto. Um primor de espaço interno e tamanho compacto, mas com esportividade quase zero.



Me posicionei no banco do motorista, ajustei a altura deste pro mínimo e me senti bem. Minhas dimensões exageradas foram bem acolhidas pela dupla assento/encosto. Então fui para o banco traseiro e, para a minha surpresa, não tive problemas. Esse carro levaria 4 Marcelos com folga. E, além do espaço e conforto, gostei do interior do compacto. O painel, apesar de simples ao extremo e dotado de ridículas saídas de ar redondas (o conjunto central lembra o Baby da Família Dinossauros), passa impressão de qualidade. Qualidade no limiar da pobreza, mas não deixa de ser qualidade.

Dou partida no motor Nissan 1.6 16V de duplo comando, com 111 cv @ 5.600 RPM e 15,1 mkgf @ 4.000 RPM. Com Etanol ou Gasolina? Com os dois. Isso é fruto da taxa de compressão conservadora de 10,7:1. E seu funcionamento é deliciosamente suave em marcha lenta. São números comuns para um motor 1.6, mas ao verificar na ficha técnica o baixo peso de 964 kg do carro, abri um ligeiro sorriso. A distância até a estrada era de apenas 10 km, mas minhas intenções já eram as piores possíveis.


Após manobrar o compacto sem dificuldade graças à levíssima direção elétrica, apontei o compacto para a rua e parei no sinal ao lado de um Ford Fiesta 1.6, cuja dona se mostrou tremendamente interessada pelo "meu" carro, visto que acompanhou o ornitorrinco branco por cada metro desde sua saída do estacionamento até ali aonde estávamos. Sinal verde, a dona do Fiesta acelerou na frente, mas dei uma patada no acelerador do pequeno Nissan, que logo tomou a ponta até o cruzamento seguinte. Então a moça parou ao meu lado e perguntou se era 2.0, além do preço. Disse quera 1.6 e custa R$ 38.000 (custava até o IPI baixar novamente). Ela abriu um sorriso e foi embora. 

Um engarrafamento se colocou no meu caminho até a estrada, e então foi possível aproveitar o conforto que os bancos do March oferecem. O isolamento acústico está na média, assim como o funcionamento do ar-condicionado. Só não gostei da falta de entrada USB no som, mas a qualidade sonora não deixa a desejar. Nas mudanças de faixa a direção leve e as respostas rápidas do acelerador deixam claro que na cidade o compacto tem seus dias de glória. E o consumo? Uma média de 9 km/l de Etanol nessas condições de engarrafamento com o ar-condicionado ligado.



E logo que o engarrafamento se dissipou, era a hora de ver o que aquele compacto leve e potente era capaz de fazer em uma estradinha sinuosa. Me lembrei imediatamente do Ford Ka Sport, minha referência de comportamento dinâmico entre carros desse porte, que tem relação peso/potência bem parecida.

Em 5ª marcha a 70 km/h, reduzo para 3ª e colo o pedal do acelerador no assoalho, chamando a japinha pra dança. O torque é despejado imediatamente e a rotação do motor sobe de forma vigorosa e contínua. Quando a marcha seguinte entra, o limite da rodovia já está aparecendo no painel e eu jogo a 5ª para fazer o compacto fluir suavemente. Poderia ser mais suave caso a 5ª marcha fosse mais longa, mas o belíssimo motor Nissan não incomoda em altos giros.


Em linha reta esse compacto é uma beleza. Dá gosto reduzir marcha e afundar o pé, recebendo em troca aquela agradável sensação de haver uma reserva boa de força no motor. É uma relação peso/potência para entusiasta nenhum botar defeito. Quase me sinto prestes a dizer que não há nada tão divertido por um preço tão baixo. Eu disse "quase".

Primeira curva de raio aberto à direita, entro com um ímpeto acima do normal e lá se vai a dianteira embora, com certa facilidade. Outra curva fechada à esquerda, threshold braking, e a dianteira teima em procurar um relacionamento além da cerca, ou melhor, do guard-rail. E se não fosse o suficiente, a assistência elétrica da direção que outrora me arrancou um sorriso durante manobras, agora mostra o quão virtual ela é no trato com as rodas dianteiras. Além de tudo, o pedal dos freios sem ABS (nem como opcional) é pouco comunicativo, apesar da progressividade correta.

Mas esse comportamento não é culpa do compacto, que possui uma suspensão bem calibrada, ainda que seja trivial (McPherson na dianteira, eixo de torção na traseira), rodas posicionadas nas extremidades da carroceria e boa distância entre-eixos para um compacto. Acontece que os pneus Maxxis MA307 175/60 R15 são apenas medianos, não condizentes com o desempenho que o carro oferece. Caso eu comprasse um March 1.6, deixaria esse jogo de pneus tailandeses em casa, aproveitaria as rodas e colocaria dois pares de bons chicletes 185/55 R15, pra cair no abraço sem mudar muito as características do carro.

Depois de quase 1.000 km em estrada, o March (minha unidade passava de 8.200 km rodados no total) me informava um excelente consumo de 12,6 km/l, de E100, mantendo uma média de 110 km/h na estrada. É um número expressivo, que confere boa autonomia ao modelo que possui um tanque pequeno, de apenas 41 litros. E confesso que essa qualidade voltou a trazer um sorriso enorme de volta ao meu rosto, suficiente para considerar a compra do Nissan March 1.6 SV uma compra RACIONAL.

Texto: Marcelo Silva
Fotos: Divulgação

4 comentários:

  1. Gabriel Boardman Frederico27 de maio de 2012 às 23:31

    Suspensões bem calibradas? É só trocar o pneu que o negócio melhora? Gostei...

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    1. Não consigo parar de imaginar esse carrinho em um track day usando Toyo R888...

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  2. A taxa de compressão do motor Nissan 1.6 16v do March e Versa (HE16DE) é 10,7:1 e não 9,8:1.

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    1. Amigo, você tem plena razão. Confundi com a taxa do Renault 1.6 16V. Já alterei no texto, muito obrigado!

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